O problema da comunicação entre o técnico e o camponês

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Foto: Equipe do projeto e Marieta em sua propriedade no Acampamento Elizabeth Teixeira – Limeira/SP. Arquivo pessoal.

A comunicação tem em si muitas expressões, distintas e complementares, mas na formação profissional desenvolvida pela Universidade se utiliza principalmente a comunicação verbal, onde se estabelecem relações bem nítidas de poder (entre aquele que fala e o que ouve, aquele que sabe/entende e aquele não), onde atua com uma autoridade “disciplinadora” e de “acomodação” (FLEURI, 2008; FREIRE, 2014) seja na sala de aula ou fora dela.

“Fora da sala de aula” se dá na condição de extensionista, um conceito questionável.

O grupo do projeto Mosaico Educo Florestal Agroecológico, da Oca, que atua com a frente de  “Atividades agroecológicas em acampamento: oportunidade para extensão universitária em comunidade de Limeira/SP”, da ESALQ, preocupou-se em fazer diálogos de formação que pudessem aprofundar no caráter extensionista que o grupo pretendia fazer junto ao acampamento Elizabeth Teixeira – Limeira/SP. Para isso resolvemos nos basear na leitura da obra “Extensão ou Comunicação?” de Paulo Freire (1983), importante educador brasileiro, que mudou a forma de fazer-falar de educação.

O termo extensão é amplamente usado por diferentes instituições, programas do governo, empresas, universidades, grupos de pesquisa, entre outros e por isso é importante questionar qual o significado e valor desta palavra, para que saibamos “de onde partimos” (quais os princípios) para a construção de nossas ações.

De início o educador  contextualiza a etimologia da palavra e suas formas de uso,  criticando então o termo “extensão”, que para ele indica o ato de estender, transmitir, depositar o conhecimento de alguém que tudo sabe (o técnico) para alguém que apenas absorve, dócil e passivamente o conhecimento (o produtor). Nosso grupo, trabalhando com vários acampados, não podemos ignorar o outro. Cada um carrega consigo sua história, família, razões, objetivos e conhecimentos.

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Cada um sabe a dor e delícia de ser o que éCaetano Veloso – Dom de iludir (1977)

Foto: Seu Gilberto explicando sobre a ideia da bacia de evapotranspiração.Acampamento Elizabeth Teixeira Limeira/SP. Arquivo pessoal

Devemos promover processos educadores que tragam à tona o sujeito como autor da sua vida, àquele que tem autonomia na busca de atuar e transformar sua realidade (FREIRE, 2002), sempre tomando cuidado para não se criar uma relação domesticadora e/ou persuasiva, isto é, um invasor cultural (FREIRE, 1983).

Estes termos negam a formação do conhecimento autêntico, a ação e a reflexão verdadeiras. Só aprende verdadeiramente aquele que se apropria do aprendido, e podendo adaptá-lo, reinventa de acordo com suas necessidades. Não excluindo sua própria forma de estar e pensar o mundo.

As pessoas precisam problematizar sua condição para que, observando-a criticamente, atuem também criticamente sobre ela.

A educação, portanto, se torna uma busca permanente de humanos conscientes de sua ação transformadora no mundo, que a partir do diálogo, constroem pontes para sociedades onde a liberdade não existe somente em dicionários.

Nesse contexto, nossas ações como equipe de extensionistas-comunidadores/as busca sempre se orientar por esses princípios, para que nossas atividades e oficinas não sejam nem “assistencialistas” e nem desconectadas da realidade. Onde o diálogo e a troca de saberes é o meio, na tarefa de construir processos que qualifiquem a vida dos sujeitos, empoderando-se cada vez mais na transformação para Sociedades Sustentáveis.

 

Por Luã Gabriel Trento – Eng. Florestal e Educador Agroecológico – ESALQ/USP e 

Renata Batista – Graduanda em Eng. Agronômica – ESALQ/USP

 

Referências:

FLEURI, R. M. Rebeldia e democracia na escola. Revista Brasileira de Educação, v. 13, n. 39, p. 470–482, 2008.

FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. p. 189, 2014.

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. 25a ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 2002.

FREIRE, P. Extensão ou Comunicação? 7. ed. Rio de Janeiro, RJ: Paz e terra, 1983.

 

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